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O Cartesianismo - Malebranche e Christian Wolff

 

 

NICOLAS MALEBRANCHE

Com Spinoza, o racionalismo cartesiano entra em síntese com o panteísmo neoplatônico. Com Malebranche, o cartesianismo entra em síntese com o agostinianismo, sobre a base de um inicial platonismo comum. Mas, ao mesmo tempo, sofre um regresso sobre a linha do seu lógico desenvolvimento panteísta e racionalista, devido ao teísmo e ao cristianismo que Malebranche se esforça por conciliar com o cartesianismo.

Dos dois problemas fundamentais deixados em herança por Descartes (relações entre Deus e mundo, entre espírito e matéria), Spinoza resolvera o primeiro mediante o seu rígido monismo da substância; o segundo, mediante o famoso paralelismo dos atributos extensão e pensamento na substância. Malebranche, pelo que diz respeito ao primeiro problema, chega a conceber Deus como causa única, entretanto não ousa afirmá-lo como substância única; pelo que diz respeito ao segundo, nega também ele - como Descartes e Spinoza - toda interação entre espírito e matéria, e também ele recorre a Deus para explicar as relações entre o espírito e a matéria.

Vida e Obras: Nicolas Malebranche  nasceu em Paris em 1638. Estudou filosofia no colégio "De la Marche" e teologia na Sorbona. Entrando jovem na Congregação do Oratório, em 1660, foi ordenado padre em 1664. Foi profundamente influenciado pelo agostinianismo dominante no Oratório, e pelo cartesianismo. Estas são as duas fontes principais do seu pensamento, procurando conciliá-las no seu sistema filosófico. Faleceu em 1715.

As obras de Malebranche tiveram grande êxito e levaram-no a várias polêmicas. As principais obras são: Recherche de la vérité (1674-1675); Méditations chrétiennes et métaphysiques (1683); Traité de morale (1684); Entretiens sur la métaphysique et sur la religion (1688).

O Pensamento: A Gnosiologia: Como Descartes e o conseqüente racionalismo, a gnosiologia de Malebranche desvaloriza o conhecimento sensível, especialmente os sentidos externos e atribui às idéias todo o valor do conhecimento. Pisando as pegadas de Agostinho e de Descartes, declara as idéias eternas e imutáveis, claras e distintas e, portanto, verdadeiras objetivamente. Visto essas idéias serem necessárias e universais, não só não podem derivar da sensação, mas nem sequer ser produzidas pelo espírito humano, como a sensação, é particular e contingente. As idéias, pois, nada mais são que o próprio objeto inteligível presente ao nosso pensamento: são idéias ontológicas, exteriores ao sujeito que conhece, a saber, são os arquétipos eternos e imutáveis, necessários e universais, das coisas; tais idéias estão na mente de Deus e nele nós temos a intuição delas (ontologismo). Esta visão é possível porque Deus está intimamente presente ao nosso espírito e lhe pode revelar a sua essência porquanto é comunicável. Noutras palavras: nós vemos, não propriamente a Deus, mas apenas o que há nele de imitável. 

A Metafísica: Se bem que Malebranche afirme que Deus está intimamente presente ao nosso espírito como revelador das idéias, sente ele a necessidade de provar a existência de Deus na sua realidade subsistente e de determinar-lhe a natureza. Para demonstrar a existência de Deus, Malebranche recorre substancialmente ao sólito argumento ontológico, caro aos platônicos e aos agostinianos. A respeito da natureza de Deus, julga ele que seja essencialmente incognoscível, pois nós não temos uma idéia clara e distinta do infinito. A única idéia clara e distinta que temos é a de extensão inteligível (e de seus modos); isto é, vemos a extensão inteligível em Deus, e tal idéia se torna representativa de Deus pelo seu caráter de infinidade. A respeito das relações entre Deus e o mundo, Malebranche teística e cristãmente afirma Deus criador dos espíritos e da matéria: quer dizer, admite uma pluralidade de substância. Diversamente afirma a unidade da causa, porquanto não há causas segundas. Deus opera diretamente em todas as criaturas; ele só é causa e atividade, e as assim chamadas causas segundas não passam de ocasiões para o operar da causa única divina (ocasionalismo).

Como não temos uma idéia clara de Deus, assim não temos uma idéia clara da nossa alma, quer dizer, da sua natureza. Temos uma intuição da sua existência, um sentimento, que - ao contrário das idéias - é racionalmente confuso, mas, em todo caso, ele só atinge a existência contingente, o que as idéias não podem fazer.

Acontece o contrário a respeito do mundo físico, material. Temos dele uma idéia clara, porque temos a idéia clara de extensão inteligível. Temos, porém, um sentimento confuso da existência atual do mundo material; trata-se de uma percepção sensível inferior à da existência do espírito, tanto assim que é mister a revelação cristã, que nos diz ter Deus criado o mundo, para que estejamos propriamente certos da sua existência.

As relações - a interação entre as coisas materiais de um lado e os espíritos humanos do outro, isto é, entre alma e corpo - dependem de Deus e são produzidas diretamente por ele segundo a doutrina do ocasionalismo. Malebranche baseia esta doutrina em duas teses de origem cartesiana: em física, inércia natural da extensão, único elemento constitutivo das coisas materiais; em psicologia, a impossibilidade de uma interação entre corpo e alma, espírito e matéria. Não há, logo, causalidade ativa nem dos corpos entre si, nem da alma sobre o corpo, nem do corpo sobre a alma. Toda energia produtora de ser e de atividade pertence propriamente a Deus.

A Moral: Malebranche procura conciliar essa atividade universal divina com o livre arbítrio humano. O homem é livre não no sentido de que seja capaz de fazer, produzir alguma coisa, mas no sentido de que é capaz de suspender a ação divina em si: suspensão (antes de que produção) de efeitos. Dessa maneira, a vontade, livre embora, não é causa produtora.

Aspecto característico da moral de Malebranche é o apelo para o cristianismo e, precisamente, para o pecado original, a fim de explicar plena e verdadeiramente o homem na sua realidade atual. A desordem das paixões, bem como o erro no conhecimento, encontram só no pecado original a causa única que os explica. Sem o pecado haveria perfeita harmonia entre corpo e espírito, sensibilidade e pensamento, impulso e vontade. Assim, os filósofos "são obrigados à religião (revelada), pois só ela pode tirá-los do embaraço em que se encontram".

CHRISTIAN WOLFFChristian Wolff: O racionalismo moderno toma uma sistematização rígida, formal, com Christian Wolff, vulgarizador do pensamento de Leibniz. Em Wolff, o racionalismo moderno manifesta explicitamente o seu caráter fenomenista abstrato. A filosofia, a metafísica deveria ser construída a priori, partindo dedutivamente, analiticamente, da idéia inata de ser.

Compreende-se, portanto, a reação kantiana e a acusação de dogmatismo movida contra essa orientação filosófica, que pretendia ser válido para a realidade concreta um sistema construído a priori: um mundo de idéias para um mundo de coisas, sem uma relação real entre as duas ordens. A reação é facilmente compreensível, se se considerar que os manuais de Wolff invadiram a cultura alemã da época, e Kant lecionava na universidade servindo-se da Metaphysica de Baumgarten, que tinha condensado e ordenado em mil parágrafos o prolixo sistema de Wolff.

Dado esse caráter apriorístico, racionalista-matemático, do pensamento de Wolff, compreende-se como ele se diferencia profundamente da escolástica clássica, aristotélico-tomista, a qual concebe, sim, a ciência como uma dedução necessária de elementos e princípios primeiros, mas estes se baseiam no terreno sólido da experiência. Se é que Wolff teve algum conhecimento particular da escolástica aristotélico-tomista, certamente não compreendeu o espírito íntimo desse sistema.

Vida e Obras: Christian Wolff nasceu em Breslau em 1679. Dedicou-se aos problemas morais e religiosos, estudando também matemática. Formou-se em filosofia em Leipzig em 1703. Entrou, desde logo, em relações com Leibniz, graças ao qual teve em 1707 uma cátedra de matemática e filosofia na Universidade de Halle. O seu ensino claro e metódico, racionalista, sistemático teve um êxito imenso. No entanto, em 1723, foi demitido sob acusação de ateísmo em religião e determinismo em moral. A primeira acusação tem um fundamento na afirmação de Wolff de que a moral estaria de pé igualmente, mesmo prescindindo da existência de Deus. A segunda explica-se pela sua adesão ao determinismo racionalista de Leibniz, em que a liberdade de Deus e do homem vêm fornecer, porquanto ambos atuam necessariamente, do modo melhor. Wolff retirou-se então para a Universidade de Marburgo, voltando, em seguida, para a Universidade de Halle, aí ensinando até à morte (1754).

As obras filosóficas de Wolff são constituídas por duas séries de manuais, uma em latim, e a outra em alemão. A série dos manuais em latim, compreende precisamente: Philosophia rationalis sive logica; Philosophia prima seu ontologia; Cosmologia generalis; Psychologia empirica; Psychologia rationalis; Psychologia practica universalis; Jus naturae; Jus gentium; Philosophia moralis seu ethica; O economia. Tais manuais tiveram um grande êxito.

O Pensamento: Wolff divide a filosofia em lógica, especulativa e prática. A filosofia especulativa é, fundamentalmente, a metafísica, abrangendo a ontologia, a cosmologia geral, a psicologia, a teologia natural. A filosofia prática abrange, antes de tudo, a filosofia prática geral e o direito natural e, logo, a ética, a política, a economia. É notável o critério de verdade segundo Wolff: a verdade consiste exclusivamente na coerência entre as idéias. É a revelação completa o fenomenismo racionalista, pelo qual não há relação entre pensamento e ser. É bem diverso o critério de verdade do sistema aristotélico-tomista, pelo qual a verdade é, ao contrário, a adequação especulativa da mente com a coisa.

Quanto à idéia de ética, Wolff diz justamente que a lei moral não pode depender ao arbítrio divino; mas é absoluta, necessária, primitiva (isto é, diríamos, tomisticamente, derivante da própria natureza de Deus e das coisas por ele criadas). Diversamente, admite a obrigação absoluta da lei moral, mesmo no caso do ateísmo (como se a negação de Deus não implicasse necessariamente na negação de todos os valores).

Em todo caso, Wolff não nega Deus, nem a religião natural. Separa, porém, a filosofia que conhece a religião natural, da religião positiva, ou revelada. Desta o filósofo prescinde.

Wolff é o pai do Aufklärung, do iluminismo racionalista alemão, que sustenta o divórcio entre a religião natural e a religião positiva, e finaliza na negação desta última.

Referências Bibliográficas:

DURANT, Will. História da Filosofia - A Vida e as Idéias dos Grandes Filósofos, São Paulo, Editora Nacional, 1.ª edição, 1926.
FRANCA S. J. Padre Leonel, Noções de História da Filosofia.
PADOVANI, Umberto e CASTAGNOLA, Luís. História da Filosofia, Edições Melhoramentos, São Paulo, 10.ª edição, 1974.
VERGEZ, André e HUISMAN, Denis. História da Filosofia Ilustrada pelos Textos, Freitas Bastos, Rio de Janeiro, 4.ª edição, 1980.
JAEGER, Werner. Paidéia - A Formação do Homem Grego, Martins Fontes, São Paulo, 3ª edição, 1995.

 

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