RETRATO DE UMA SAUDADE PARTE II- A TRAJETÓRIA DO GUERREIRO DE 12 ANOS - PORTAL ESPÍRITA E FILOSÓFICO SAUDADE E ADEUS
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 Saudade e Adeus

 

Retrato de Uma Saudade Sem Fim - Parte II / III

A Trajetória do Guerreiro de 12 Anos:  Vitor Lovison do Amaral

Por Viviani (Mãe do Vitor)

 

VITOR LOVISON DO AMARAL

 Hoje nossa pequena Clara está completando nove meses de vida, e ela mais a Vivian, nossas meninas Palmeirenses, são as responsáveis por termos forças para seguir em frente, pois a dor da saudade que sentimos do Vitor, penso ser insuperável e, este mês de outubro no traz muitas lembranças por ocasião de seu aniversário que é em 25 de outubro como já contei.

Quando penso que meu filho Vitor, se estivesse aqui, estaria prestes a completar seus 15 anos, meu Deus! Eu seria a mãe mais feliz do mundo se aquela doença ingrata não o tivesse levado de nós tão cedo, e de forma tão sofrida. Se fosse para ele escolher o que teria em sua festa de aniversário, com certeza ele pediria churrasco e feijoada.

Vocês já pararam para pensar que o homem já inventou muitas coisas essenciais e outras nem tanto de um tempo para cá, como, por exemplo: Computador, celular, TV digital etc., só que a cura do câncer, ou pelo menos uma vacina contra esta doença, ainda não inventaram, seria bom se as crianças, quando nascessem, pudessem tomar para ficarem protegidas e imunes por esta doença. É pena que até agora o homem não tenha conseguido nada tão eficaz. Será que falta empenho ou mesmo interesse dos órgãos Públicos e Federais para destinarem mais recursos em pesquisas, não só aqui no Brasil como também no exterior?

Em minhas orações peço constantemente que apareça a cura para esta doença ou que apareça uma vacina que a extermine, ou seja, que faça esta doença desaparecer para sempre, se é que é possível. Pena que o leite materno que previne tantas doenças infecciosas não previna o câncer, pois eu amamentei o Vitor até ele completar 2 anos e 2 meses de idade.

Sou mãe de um filho guerreiro e, por isso, procuro ser guerreira também. Não gosto de levar tristeza às pessoas. Procuro viver minha vida da maneira que vivia quando o Vitor ainda estava aqui, por isso faço as coisas que ele gostava de fazer, e também as comidas que ele sempre gostou de comer. Uma mãe com “M” maiúsculo jamais se esquece de um filho e nem das coisas que ele gostava. Tenho certeza de que assim, esteja ele onde estiver, estará feliz por mim, e também deixo minhas filhas Vivian e Clara, e as pessoas que me querem bem, felizes. Não me esqueço nenhum dia de meu filho Vitor, meu primeiro pensamento é para ele e, o último pensamento do dia também.

VITOR E A MAMÃE VIVIANILembro-me que ele, desde que ficou doente, precisava de mim para sair de sua cama, então, quando ele acordava, ele me chamava e dizia essas palavras: “Bom dia mãe! Bença mãe! Eu te amo mãe!“, e depois dizia que queria levantar, e quando eu o pegava no colo, ele sempre me dava um beijo bem demorado em meu rosto. Como sinto saudade dos seus beijinhos, tinha um beijo que apelidamos de “beijo de esquimó”, que era quando encostávamos nariz com nariz, coisas de mãe e filho. Graças a Deus também tenho a Vivian, a qual também me dá muitos beijos, e a Clarinha já está quase aprendendo também. A vida continua..., e o amor que tenho pelos meus filhos Vitor, Vivian e Clara é o que me move a seguir em frente, sempre procurando ser uma mãe cada dia melhor.

O Vitor assim como a Vivian e seus priminhos, sempre gostaram de chupar cana que seu avô Zé Lovison descascava para eles, e colocava em potinhos ou bacias para nos finais de semana eles chuparem, e assim era e ainda é.

Por ocasião, lembro de que quando o Vitor estava na UTI de Botucatu, logo após ser operado e estar se recuperando, meu pai foi visitá-lo e levou cana para ele chupar. Algumas enfermeiras nem sabiam o que era cana, e foram perguntar para o médico responsável pela UTI naquele dia, que estava de plantão, se poderia deixar o Vitor chupar a cana que seu avô levou. Sorte que o médico sabia o que era e deixou. O Vitor adorou, e o vô Zé ficou feliz vendo seu netinho Vitor chupando a cana que ele com todo seu amor tinha descascado para uma ocasião tão triste e ao mesmo tempo feliz. Triste porque o Vitor estava ali num hospital, numa UTI sem poder se levantar e mexer suas perninhas, bem diferente de quando ele chupava a cana na casa de seu avô Zé e sua Vó Maria, que era entre uma brincadeira e outra, e jogando futebol com seus priminhos. Ao mesmo tempo feliz porque ele resistiu àquela cirurgia tão arriscada e estava vivo, e podia chupar a cana que tanto gostava.

VITOR E O VOVÔ ZÉTenho em meu coração a certeza que esta cana meu pai descascou com lágrimas nos olhos e com um aperto enorme em seu coração, embora tenha também a certeza que a alegria que meu pai sentia naquele momento, por saber que seu neto estava bem, apesar de tudo, e podia ainda chupar da cana que ele mesmo plantou em seu quintal, o deixou feliz. Só mesmo o vô Zé para ter tido esta idéia. Alguém conhece outra pessoa que levou cana em uma UTI pediátrica? Para o pessoal da UNESP foi um fato inédito!

Minhas lembranças cheias de emoções afloraram neste momento. Vejam fotos de Vitor com seu avô Zé e vó Maria Luiza quando o Vitor tinha se recuperado da cirurgia e voltou a andar, mesmo com dificuldades, depois de ter feito a radioterapia e a quimioterapia oral. Nesta foto o Vitor aparece fazendo o que ele mais gostava de fazer e que o vô Zé sempre gostou; que é pescar.

Queria agradecer ao carinho dos leitores que estão seguindo a história do Vitor e a de minha família também, contada por ele e agora por nós.

Hoje vou falar um pouco de como foi difícil a época em que o Vitor e o Carlos ficaram em Sorocaba - SP.

O Vitor precisava fazer sessões de radioterapia e a Dra. Lied nos encaminhou para a cidade de Sorocaba, por lá ser um lugar melhor para este tipo de tratamento.

O dia em fomos levar o Vitor para Sorocaba, pela 1ª vez depois que ele foi operado e iria iniciar o tratamento lá, tivemos que emprestar o carro dos meus pais, uma Parati branca, pois nós tínhamos um fusquinha verde e nele não cabia a cadeira de rodas. Neste dia chegamos a Sorocaba a noite, e para piorar a situação, a Parati “pifou”, isto mesmo, ela parou de pegar assim que chegamos a Sorocaba e, então, ligamos para meu cunhado Almyr e ele veio nos buscar com seu veículo, e depois o Carlos e o Almyr voltaram para ver o que teria acontecido com a Parati, ainda bem que o Carlos foi verificar melhor e viu que tinha uma mangueira de água solta no motor, e ele mesmo arrumou, pois o motor havia fervido. Eu, o Vitor e a Vivian, enquanto isto, já estávamos acomodados no apartamento de minha irmã Cristina, e o Vitor já se distraia com os seus primos Rodrigo e Renatinho.

Tempo de provações... A gente com o filho doente e sem poder andar, com aquela doença ingrata e impiedosa, e o mundo desabando ao nosso redor, por dentro e por fora.

VITOR LOVISON DO AMARALJuro que não sei como agüentamos tantas dificuldades de uma só vez. Mas para frente vou relatar porque acabei de lhes dizer isto, mas as pessoas que acompanharam toda trajetória de nossa luta e de nosso filho entendem o que digo.

Nestes momentos é que acredito que as orações que fazíamos é que nos mantínhamos de pé e firmes em fazer tudo que fosse preciso para que nosso filho fosse curado. Nesta época eu acreditava que existia uma possibilidade de cura.

Quantas vezes entrei sozinha nos consultórios do hospital da UNESP para falar com os médicos que cuidavam do Vitor, e com a Dra. Lied, a oncologista responsável pela quimioterapia infantil. Ouvia, desde o início, tudo que uma mãe que ama jamais sonha em ouvir a respeito de um filho que é tão querido e amado, e para o qual sonha com o que há de melhor para ele.

O Carlos ficava com o Vitor do lado de fora depois que ele era consultado para distraí-lo e, então, eu conversava com os médicos da neurocirurgia e com a Dra. Lied, a qual o Vitor tinha muito carinho e nós também.

Bem..., voltando a falar do período que o Vitor fez radioterapia.

Minha irmã Cristina (a tia aspirina) e meu cunhado Almyr, moram em Sorocaba, em um apartamento no 3º andar, e que não possui elevador. O Carlos subia e descia com o Vitor no colo três andares, às vezes seis vezes ao dia, porque de manhã levava o Vitor na Radioterapia, na Clínica Nucleon e, à tarde, na fisioterapia do Hospital de Sorocaba, sem contar que o Vitor gostava de descer para ver seus primos jogarem futebol na quadra do prédio. Não consigo nem imaginar o tamanho da força que Deus deu ao Carlos e ao Vitor nesta época.

Numa certa vez, quando o Carlos estava subindo com o Vitor, ele acabou tropeçando e caiu com o Vitor no colo, mas graças a Deus o Vitor caiu em cima do Carlos e não se machucou, e nem o Carlos.

VITOR E SUA IRMÃ VIVIANNeste período eu estava em Cerqueira César com a Vivian. Precisava estar ao lado da Vivian também, pois ela sentia muito a nossa falta, principalmente de mim, sua mãe.

Também cuidei para que ela fosse à escola e não perdesse o ano letivo, pois ela estava fazendo a 3ª série na Escola Avelino Pereira.

Nós almoçávamos e jantávamos na casa de minha mãe, depois vínhamos dormir em casa. Tínhamos uma vizinha chamada Márcia que tem uma menina que se chama Roberta e que tem a idade da Vivian, então ela vinha brincar em casa, assim a Vivian se distraia um pouco e não ficava tão triste. A Márcia também me ajudou bastante nesta época, íamos à igreja rezar pelo Vitor. Eu e a Vivian tínhamos uma a outra, e nós conversávamos bastante a noite, antes de dormir. Sentíamos muita falta do Carlos e do Vitor. Foi um período muito difícil para nós quatro. A Vivian dormia na cama comigo, ela me dava forças para suportar a saudade que sentia do Vitor e do Carlos que estavam em Sorocaba.

Sei que a Vivian sofreu muito e ainda sofre. Ela sempre me diz que chora por dentro para não nos deixar tristes. Ela rezava muito para o Vitor sarar, pois eles sempre foram muitos apegados, apesar de terem umas briguinhas básicas de irmãos. A diferença de idade deles é de 3 anos e 4 meses e, por isso a Vivian sempre ficava atrás do Vitor desde pequena. Quando ele ia brincar na casa do Vinícius, ela queria ir junto, e o Vitor segurava em sua mãozinha e mesmo contrariado a levava junto. As amiguinhas dela também quando vinham em casa brincar com a Vivian, também brincavam com o Vitor e com seu amigo Vinícius. Nossa casa era um entra e sai de crianças, uma festa. Tenho relatos da Vivian em seu diário, na época que o Vitor estava doente, que ela acreditava que o Vitor iria sarar, e com sua permissão ela me autorizou a relatar a vocês com as palavrinhas que ela aos seus 9 anos nos escreveu, como segue:

“Comunicado

De: Vivian

Para: Mamãe e papai.

Assunto: Meus pais é demais.

Mamãe e papai, no momento em que a gente está passando é difícil, sempre com lágrimas nos olhos ou um sorriso no rosto.

Mas sempre vamos ter fé em Deus e nunca desista. Deus está olhando em nossa família.

Principalmente no Vitor, na vó e o vô e eu tenho fé que Deus vai mandar um milagre pra gente.

Vivian.

Assinatura”

Obs:- O Carlos somente corrigiu três errinhos de português dela. (pasando, senpre e soriso).

Enquanto a Vivian estava na escola no período da tarde, eu tirava forças para continuar vendendo os lingeries, e assim me distraia um pouco para que o tempo passasse mais rápido, e aqueles dias intermináveis sem o Vitor e o Carlos acabassem logo. Foi a primeira que em 12 anos de casados fiquei longe do Carlos também.

VITOR E BEETHOVENNesta época nós tínhamos um cachorro, o Beethoven, que está com a gente até hoje, o Vitor ganhou da tia Lúcia e sempre gostou de jogar bola com ele. Vitor e Beethoven tinham um carinho muito grande um pelo outro, quando o Vitor estava na cadeira de rodas e eu abria a porta da sala e, o Beethoven que era e é obediente não entrava, então, o Vitor se aproximava da porta e ele colocava sua cabeça perto do Vitor para ser acariciado. Era emocionante! Só que o Beethoven é o cachorro do Vitor, da Vivian e agora também da Clarinha. Também tínhamos o Fred, um hamster marrom, ou seja, um rato de estimação que as crianças ganharam de sua prima Aninha.

O Vitor adorava o Fred. Ele e o Vinícius, seu melhor amigo de infância, sempre faziam casinhas com bloquinhos de madeira pelo chão da sala para brincar com o Fred. Lembro que o Vitor e a Vivian ganharam o Fred em janeiro de 2007, assim que chegaram da viagem que fizeram a São Paulo. Depois eles juntaram o dinheiro que tinham para comprar uma gaiola com rodinha dentro para o Fred, pois o Vitor e a Vivian recebiam mesada todo mês no valor de R$ 10,00 cada. Esta mesada foi a maneira que o Carlos encontrou para as crianças pararem de chupar o dedo e largarem de seus cheirinhos (o Vitor chupava o dedo da mão direita com uma fraldinha, e a Vivian também chupava o dedo da mão direita com uma cobertinha). As crianças levaram a proposta do Carlos a sério, só que no começo, quando eles estavam dormindo, eles automaticamente esqueciam e chupavam o dedo, quando eu levantava de madrugada para cobri-los eu via, mas não tirava o dedo deles da boca, pois tinha dó.

VITOR E O SEU HAMSTER FREDNo dia seguinte o Carlos me perguntava se eles estavam chupando o dedo enquanto dormiam, e eu mentia dizendo que não. Mas foi esta tática do Carlos de dar a mesada que deu certo, e em pouco tempo eles não chupavam mais seus dedos. Tenho a fraldinha do Vitor e o cheirinho da Vivian que é um pedaço do que sobrou de sua cobertinha, guardados até hoje. A Vivian recebe sua mesada até hoje, mais a do Vitor, depois que ele partiu.

Detalhe:- As crianças compraram o Fred escondido de nós, e esconderam-no no barracão da casa do vô Zé, mas minha mãe acabou contanto para o Carlos e depois para mim que fomos conhecer o mais novo membro de nossa família, o qual nos deu grande alegria e “trabalho”. Vendo que estavam tão felizes, nós não ficamos zangados com eles, mas só advertimos que eles iriam ter que ajudar a cuidar também.

O Fred partiu em janeiro de 2009. Nós sentimos muito e a Vivian chorou. Lembro-me que íamos viajar para Aparecida do Norte neste dia.

Depois que o Vitor foi operado, nós compramos para ele alguns peixinhos e ele gostou de um em especial, e a tia Léia deu-lhe de presente. Chegamos em casa e o Carlos montou o aquário para ele na sala, de frente para o sofá onde ele ficava deitado. Pena que alguns dias depois, os peixinhos morreram porque estava muito frio e não tínhamos aquecedor de aquário. Vitor sempre adorou peixes, desde pequeno.

Sorte que neste mesmo dia que compramos os peixinhos, ele também ganhou um peixe Beta que ficava em um aquário pequeno, de sua prima Corina e por ser mais resistente, foi o único que sobreviveu. O Carlos sempre limpou os aquários dos peixes, e limpava a gaiola do Fred.

O Vitor mesmo estando sem poder andar, fazia questão de tratar dos peixes e do Fred com a ajuda de sua irmã Vivian. Penso que as crianças aprendem a ter responsabilidades com seus pais, talvez quando eles ainda são pequenos, não cumpram direito suas tarefas, mas, tendo sempre o bom exemplo, um dia irão ser adultos responsáveis.

Continuo outro dia.

Um grande abraço desta mãe que se sente feliz em poder falar dos momentos felizes da vida do Vitor e em dar continuidade a história que ele não pode terminar de escrever.

Viviani.

 

Se quiserem, podem enviar um e-mail pessoal aos pais do Vitor, Viviani e Carlos, pois eles ficarão muito felizes.

E-mail de Viviane e Carlos - Pais de Vitor

 

   

 
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